Mas a Telebras não acredita que a montagem final do SGB possa ser feita no país
Carlos Orsi
Inovação Unicamp
O Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB), que a Telebras espera ter em operação no espaço até meados de 2014, a tempo para a Copa do Mundo de Futebol, será construído no exterior. Ainda assim, existe a perspectiva de que haja transferência de tecnologia para o Brasil, e há a possibilidade de que os testes finais e o lançamento do material sejam feitos no País. O investimento estimado é de R$ 716 milhões.
“Não existe indústria nacional que faça esse tipo de satélite”, disse a Inovação Unicamp o engenheiro de telecomunicações da Telebras, Ruy de Araújo Carneiro. “O que existe é uma grande possibilidade de haver uma indústria nacional que participe da fabricação e absorva essa tecnologia”.
Carneiro explica que a transferência de tecnologia deve envolver tanto a parte espacial quanto a terrestre – no caso, as antenas, em terra, que ficam conectadas ao satélite. “Esse me parece até um fundamento mais rápido e mais fácil de dominar”, declarou.
Ele disse que uma empresa fará a montagem, ou integração, do satélite, reunindo componentes produzidos por terceiros. Técnicos brasileiros iriam ao exterior para acompanhar o processo.
“Acho difícil que essa integração ocorra no Brasil”, opinou. “Nós faríamos um acompanhamento”.
A possibilidade de a integração vir a ocorrer em território nacional havia sido levantada quando a decisão de adquirir o satélite no exterior foi divulgada, no fim de setembro. O presidente da Embraer Defesa e Segurança, Luiz Carlos Aguiar, citado pelo jornal Valor Econômico, chegou a manifestar interesse no projeto.
“Nós iríamos aprender com os fabricantes. Acompanhar a integração, os testes”, explicou Carneiro. Isso permitiria, nas palavras do engenheiro, que a indústria brasileira começasse a “fazer parte” do satélite. O principal interesse das empresas nacionais, nesse caso, seria “aprender a fazer, a fabricar”.
Ele afirmou, no entanto, que alguns testes do satélite poderão acontecer já em território nacional. “Testes elétricos, testes mecânicos, que são severos porque na hora do lançamento há muita vibração, esses testes a gente acha que tem muita coisa que poderia ser feita no Brasil, no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)”.
Lançamento
Carneiro disse ainda que há a possibilidade de o satélite ser lançado do Brasil, a partir da base espacial de Alcântara.
Isso vai depender, de acordo com ele, da massa final do equipamento e de a empresa binacional Brasil-Ucrânia Cyclone Alcântara Space já ter disponível, até 2014, o foguete Cyclone 4, com capacidade de levar até 1.600 kg para a órbita geoestacionária.
“O satélite terá de atender às Forças Armadas e à Telebras. Mas se ele conseguir ficar abaixo desse peso, poderá ser lançado de Alcântara. Se não, teremos de buscar lançamento no exterior”, disse.
Satélites geoestacionários ficam numa órbita mais elevada que a faixa chamada de órbita baixa da Terra, onde trafegam a maioria dos objetos lançados pelo homem ao espaço, incluindo a maioria dos satélites, a Estação Espacial Internacional (ISS) e o Telescópio Espacial Hubble.
Nessa órbita mais alta, os satélites completam uma rotação a cada 24 horas, efetivamente acompanhando um ponto sobre a superfície da Terra. Satélites desse tipo são usados, principalmente, transmissões de televisão e de dados. O SGB será usado para comunicações das Forças Armadas e, na aplicação civil, principalmente para internet de banda larga.
Clientes
“O objetivo é ter o satélite operando, disponível, no meio de 2014, para a Copa e outras coisas”, disse Carneiro. Do ponto de vista da Telebras, a principal função do SGB será levar banda larga a mais de mil municípios brasileiros.
“A Telebras já tem uma série de fibras, cedidas pelas empresas de energia elétrica, pela Petrobras, para fazer os anéis de fibra óptica” para a internet, explicou o engenheiro. “Mas os anéis de fibra óptica não alcançam o território nacional todo”.
Dos mais de 5.500 municípios brasileiros, disse Carneiro, cerca de 1.300 estão fora da cobertura de fibra óptica e dependerão do satélite para ter acesso à banda larga. A Telebras não descarta, no entanto, usar o SGB para prestar serviços a outros clientes de telecomunicação.
“Ainda não temos a demanda estimada para 2014, mas estamos avaliando qual será, e então vendo se configuraríamos o satélite para atendê-la”. A decisão sobre uma configuração para servir a outros clientes no ano da Copa dependeria, ainda, de vários fatores: “Isso pode afetar o peso do satélite e se ele será lançado daqui ou não, o que dependerá de se o projeto Cyclone em Alcântara já estará disponível”, exemplifica.