Observatório da Inovação e Competitividade

Site do Observatório da Inovação da USP, uma iniciativa do IEA/USP, coordenado pelos Professores Glauco Arbix e Mário Salerno.

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Ainda sobre a Palestra de Dani Rodrik.

sexta-feira, abril 23rd, 2010

Coincidentemente, nesta mesma semana, o governo brasileiro e o indiano endossaram enfaticamente o coro norte-americano contra o Yuan desvalorizado. Dão a entender que esse será um dos temas do próximo encontro do G20. Para o Finantial Times, assim como para os professores da FEA, a crítica foi inesperada. A relação é certamente ambígua. Para os setores que exportam para a China a situação atual e ótima. Porém, para aqueles que concorrem com a China nos principais mercados mundiais, ou seja, principalmente para a industria de bens de consumo e de serviços, é uma situação praticamente desleal.  Torna-se também mais difícil para o Brasil fomentar o desenvolvimento de outros setores industriais, mais intensivos em conhecimento e que geram mais externalidades positivas, como no caso da micro-eletrônica, nano e biotecnologia.

Segue artigo do Finantial Times publicado pela Folha.

Sobre a Palestra de Dani Rodrik na FEA no dia 16/04/2010.

segunda-feira, abril 19th, 2010

Após uma verdadeira luta contra a burocracia para entrar no evento, reservado aos alunos de pós graduação da FEA, consegui assistir um pouco mais da metade da apresentação de Rodrik (Making Room for China in the Wolrd Economy). Segue o que vi, em linhas gerais:

 1. Rodrik mostrou um gráfico no qual o ritmo  crescimento Chinês aparece acompanhando o grau de subvalorização do Yuan em relação ao Dólar. Depois ampliou o exercício e, por meio de um teste de regressão, mostrou que para o grupo dos ”países em desenvolvimento” como um todo, o grau de subvalorização da moeda nacional em relação ao dólar é uma variável altamente significativa para explicar o crescimento do PIB.

 

2. Ele buscou explicar essa relação pelo fato de que o cambio subvalorizado estimularia a atividade de uma indústria de bens comercializáveis. Isso seria significativo para os países em desenvolvimento, segundo ele, por estes possuírem uma estrutura dualista, e uma ampliação dos bens comercializáveis implicaria numa transferência de recursos e de pessoas de setores tradicionais para setores modernos de produção.

 

3. Tal fato geraria crescimento não apenas por causa do ganho direto de produtividade e renda, mas também porque os setores modernos seriam capazes de gerar maiores externalidades positivas, em termos de fluxos de conhecimentos produtivos, para outras atividades. Além disso, setores modernos exigiriam e fomentariam instituições mais fortes, que, por sua vez, seriam fundamentais para o desenvolvimento.

 

4. Rodrik, entretanto, também apontou que um efeito semelhante poderia ser conseguido sem uma desvalorização excessiva do cambio - que também traz conseqüências negativas -  por meio de uma política industrial “inteligente”, que envolvesse subsídios regressivos a setores industriais estratégicos, como aqueles intensivos em conhecimento. Tais subsídios, entretanto, são muitas vezes proibidos pelos acordos da OMC.

 

5. Calculou que uma apreciação de 25% no Yuan causaria uma redução de 2,15% no crescimento anual do PIB chinês. E afirmou que a China tem a sua disposição um “menu de escolhas desagradáveis”:


         a. Manter sua política monetária como está => riscos de crescentes desequilíbrios estruturais no comércio mundial e de um crescente protecionismo norte-americano.
         b. Apreciar o Yuan e adotar uma política industrial tradicional => Risco de desaceleração no crescimento e de instabilidade política interna.
        c. Substitui sua política monetária por uma “política industrial inteligente” => precisará construir capacidade institucional para isso, e ainda corre o risco de violar as regras da OMC.
 
 
 
 Após a apresentação, abriu-se o plenário para perguntas. Os professores da FEA demonstraram certo desconforto com a defesa que Rodrik fez de uma política industrial e fizeram comentários como: “isso pode funcionar bem para a China que tem uma vocação industrial, mas e para o Brasil que tem uma vocação agrícola..”, ou então, “você mencionou a capacidade institucional, a Coréia pode ter isso, mas o Brasil não tem, nesse sentido você não acha que a interferência do governo atrapalha mais do que ajuda”, ou ainda, “mas se a China apreciar o Yuan eles vão ficar mais ricos e poderão consumir mais…”.

 Rodrik foi muito educado, elogiou as perguntas e repetiu o que já havia dito a respeito das mudanças que estão ocorrendo na China e sobre como a Coréia era muito pior do que o Brasil há 40 anos. Ao fim, ele fez uma pergunta ao plenário, querendo saber o que os brasileiros achavam sobre os impactos que uma eventual apreciação do Yuan poderia ter para nós.

 Um dos professores presentes apressou-se em dizer que o Yuan depreciado era bom, pois sustentava o crescimento chinês e conseqüentemente o mercado para as commodities brasileiras. Rodrik concordou e disse que essa era uma visão possível. Mas perguntou se não havia outra. Nenhum dos presentes soube , ou ousou, dizer o porquê eventualmente poderia ser boa para o Brasil uma eventual apreciação do Yuan…
 
Atrás de nós, duas mulheres cochicharam que Rodrik sabe muito mais da história e das instituições do Brasil do que muito professor que estava ali presente.
 

Por que a cooperação Brasil-Alemanha interessa ao Brasil?

segunda-feira, março 1st, 2010

Glauco Arbix

Na América Latina, o Brasil é o parceiro comercial mais importante da Alemanha. Mas, ao longo da história, esse comércio tem sido desequilibrado e assimétrico. Não necessariamente em termos dos valores envolvidos, mas em termos de qualidade dos produtos e serviços trocados.

Historicamente, há um grande viés de commodities no comércio entre Alemanha e Brasil. Minério de ferro, café, soja e carne estão entre os principais produtos exportados para a Alemanha. Autopeças, produtos químicos, motores e máquinas estão entre as principais importações brasileiras. Embora as razões para explicar tais assimetrias sejam múltiplas (e controversas), se a cooperação entre Brasil e Alemanha quer se tornar efetiva, precisa ter como alvo a diminuição da distância tecnológica existente entre os dois países, de modo a aproximar os processos de inovação da fronteira do conhecimento.

Há enorme esforço no Brasil para colocar a inovação no centro das políticas de desenvolvimento. Não há como melhorar a competitividade da economia se não aumentar a sinergia entre ciência e tecnologia. Para ampliar a inovação nas empresas, as políticas publicas precisam concentrar suas atenções: (a) na elevação da qualidade da mão-de-obra; (b) no aumento do contingente empresas que desenvolvem atividades inovadoras; (c) na flexiblização das relações entre universidade e empresa, apenas para citar algumas questões-chave.

Se as relações entre o Brasil e a Alemanha estão assentadas em pressupostos e preocupações comuns, uma real cooperação pode ser estabelecida com base: (1) na remoção de todas as barreiras existentes à livre circulação de pesquisadores; (2) no estímulo ao investimento em tecnologia, em especial no ainda incipiente capital semente brasileiro, base para a geração de start-ups; (3) incentivo ao investimento privado e público alemão, com a instalação de centros de P&D no Brasil.

Se a a diminuição das enormes desigualdades cientificas e tecnológicas existentes entre os dois países não estiver equacionada, dificilmente a cooperação será duradoura. 
 

Breve nota escrita para: Deutsche Universitätszeitung (DUZ), em 24.02.2010

 Tradução do original em inglês: Luiz Caseiro.