Após uma verdadeira luta contra a burocracia para entrar no evento, reservado aos alunos de pós graduação da FEA, consegui assistir um pouco mais da metade da apresentação de Rodrik (Making Room for China in the Wolrd Economy). Segue o que vi, em linhas gerais:
1. Rodrik mostrou um gráfico no qual o ritmo crescimento Chinês aparece acompanhando o grau de subvalorização do Yuan em relação ao Dólar. Depois ampliou o exercício e, por meio de um teste de regressão, mostrou que para o grupo dos ”países em desenvolvimento” como um todo, o grau de subvalorização da moeda nacional em relação ao dólar é uma variável altamente significativa para explicar o crescimento do PIB.
2. Ele buscou explicar essa relação pelo fato de que o cambio subvalorizado estimularia a atividade de uma indústria de bens comercializáveis. Isso seria significativo para os países em desenvolvimento, segundo ele, por estes possuírem uma estrutura dualista, e uma ampliação dos bens comercializáveis implicaria numa transferência de recursos e de pessoas de setores tradicionais para setores modernos de produção.
3. Tal fato geraria crescimento não apenas por causa do ganho direto de produtividade e renda, mas também porque os setores modernos seriam capazes de gerar maiores externalidades positivas, em termos de fluxos de conhecimentos produtivos, para outras atividades. Além disso, setores modernos exigiriam e fomentariam instituições mais fortes, que, por sua vez, seriam fundamentais para o desenvolvimento.
4. Rodrik, entretanto, também apontou que um efeito semelhante poderia ser conseguido sem uma desvalorização excessiva do cambio - que também traz conseqüências negativas - por meio de uma política industrial “inteligente”, que envolvesse subsídios regressivos a setores industriais estratégicos, como aqueles intensivos em conhecimento. Tais subsídios, entretanto, são muitas vezes proibidos pelos acordos da OMC.
5. Calculou que uma apreciação de 25% no Yuan causaria uma redução de 2,15% no crescimento anual do PIB chinês. E afirmou que a China tem a sua disposição um “menu de escolhas desagradáveis”:
a. Manter sua política monetária como está => riscos de crescentes desequilíbrios estruturais no comércio mundial e de um crescente protecionismo norte-americano.
b. Apreciar o Yuan e adotar uma política industrial tradicional => Risco de desaceleração no crescimento e de instabilidade política interna.
c. Substitui sua política monetária por uma “política industrial inteligente” => precisará construir capacidade institucional para isso, e ainda corre o risco de violar as regras da OMC.
Após a apresentação, abriu-se o plenário para perguntas. Os professores da FEA demonstraram certo desconforto com a defesa que Rodrik fez de uma política industrial e fizeram comentários como: “isso pode funcionar bem para a China que tem uma vocação industrial, mas e para o Brasil que tem uma vocação agrícola..”, ou então, “você mencionou a capacidade institucional, a Coréia pode ter isso, mas o Brasil não tem, nesse sentido você não acha que a interferência do governo atrapalha mais do que ajuda”, ou ainda, “mas se a China apreciar o Yuan eles vão ficar mais ricos e poderão consumir mais…”.
Rodrik foi muito educado, elogiou as perguntas e repetiu o que já havia dito a respeito das mudanças que estão ocorrendo na China e sobre como a Coréia era muito pior do que o Brasil há 40 anos. Ao fim, ele fez uma pergunta ao plenário, querendo saber o que os brasileiros achavam sobre os impactos que uma eventual apreciação do Yuan poderia ter para nós.
Um dos professores presentes apressou-se em dizer que o Yuan depreciado era bom, pois sustentava o crescimento chinês e conseqüentemente o mercado para as commodities brasileiras. Rodrik concordou e disse que essa era uma visão possível. Mas perguntou se não havia outra. Nenhum dos presentes soube , ou ousou, dizer o porquê eventualmente poderia ser boa para o Brasil uma eventual apreciação do Yuan…
Atrás de nós, duas mulheres cochicharam que Rodrik sabe muito mais da história e das instituições do Brasil do que muito professor que estava ali presente.