Fonte: Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro
Cláudio Mazzola, gerente de Inteligência Tecnológica da Clarke, Modet & Co
O setor aeroespacial e de defesa é mundialmente reconhecido por seus incontáveis avanços no desenvolvimento de tecnologia e inovação, devido a mais de um século de avanços técnicos sem precedentes. Porém, o setor não se encontra mais em seu auge como que em épocas de Guerra Fria. O cenário competitivo geopolítico e econômico mudou significativamente na última década e o papel da indústria A&D, como grande impulsionadora de inovações, foi enfraquecido e sendo sobreposto por outras indústrias, derivadas da própria A&D, como a de tecnologia da informação e comunicação.
Vem surgindo, então, a necessidade de se investir em um novo modelo, que permita mais interação como outros setores. É natural que soluções do setor A&D migrem com o tempo para outras áreas. No entanto, começa a ser observado um fenômeno reverso de interação entre setores, como que uma via dupla de conhecimento. Um grande número de inovações, novas tecnologias e novos conceitos são e serão descobertos em outros lugares: universidades, pequenas e médias empresas, outras indústrias (telecomunicações, tecnologia da informação, química, energia). Trata-se de um processo conhecido como outside in no modelo de inovação aberta. Esses recursos criados para além dos muros podem e devem ser utilizados internamente.
É importante que as empresas de A&D possam capturar essas inovações e trabalhar em colaboração com universidades e outras empresas no desenvolvimento de plataformas tecnológicas de uso militar, principalmente nos chamados processos coupled (alianças, cooperação e joint ventures para codesenvolvimento e comercialização da inovação). Laboratórios de pesquisa do setor já estão em parceria com os melhores universidades e instituições de pesquisa, de modo a compreender, antecipar e preparar as próximas quebras de conceitos. É o caso, por exemplo, da Nasa, que possui um centro de excelência em projetos colaborativos para inovação onde, em conjunto com instituições de ensino como Havard Business School, plataformas de crowd sourcing como Innocentive e Yet2 e apoio de fundos governamentais, busca oferecer soluções para os requisitos e demandas das agências governamentais norte-americanas.
A troca com agentes externos é igualmente benéfica para os parceiros. Muitas tecnologias desenvolvidas pelo setor de A&D têm uso duplo civil e para defesa e são aplicáveis em outros setores, principalmente nos campos de segurança, transporte, logística e tecnologia da informação. Cabe ressaltar que questões relacionadas à mobilidade urbana, comunicação, gestão de recursos hídricos e energéticos são fundamentais para manutenção da vida dos grandes centros.
Um exemplo brasileiro que pretende caminhar nessa direção é o polo de Guaratiba, onde já estão presentes o Centro Tecnológico e o Centro de Avaliação do Exército, e que vai abrigar, em breve, o Instituto militar de Engenharia (IME). A transferência do IME para Guaratiba aproxima pesquisa e desenvolvimento criando um canal de interação com a universidade mais acessível e eficiente. O polo vai ser então um campo de aplicação direta da inovação aberta, ao unir indústria, governo e academia em uma sinergia semelhante à encontrada nos parques tecnológicos suecos.
Vale lembrar que inovação aberta não implica em disponibilizar tecnologia sensível sem se preocupar com modelos de monetização. Inovação também é monetizar ideias novas e não apenas gerá-las.
A sueca Saab é um exemplo forte de como esse processo pode ocorrer. A empresa possui um empreendimento corporativo com foco em investimentos spin-in e spin-out, a Saab Ventures. Quando surgem projetos promissores a partir das atividades de Pesquisa e Desenvolvimento da Saab em que se percebe que podem ser mais bem aproveitados por meio de novos negócios, eles passam por processos de spin out. Ao mesmo tempo, o braço de investimentos do grupo busca empresas emergentes que podem agregar valor ao core business da Saab e incentiva o desenvolvimento de projetos inovadores independentes – é o chamado spin in. A Saab também participa de redes de inovação como o Lindholmen Science Park e o Mjerdevic Science Park.
A inovação aberta apoiada no tripé universidade, empresa e governo, portanto, pode e deve ser um caminho em diversas áreas, inclusive para o setor de A&D. O modelo começou a ser implantado no Brasil por meio de diversos projetos na área de redes elétricas urbanas inteligentes e de biocombustíveis de segunda geração, visando à produção de polímeros verdes, além do incentivo aos parques tecnológicos, com laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de grandes empresas, universidades, institutos de tecnologia, empreendedores e investidores.
